ATESTADO DE POBREZA

 

         A primeira refeição do dia não é lá grande coisa, em função da preguiça em arrumar uma mesa decente e da pressa para sair para o trabalho, mas sempre tem um café quente, leite, margarina, alguns frios e, principalmente, a companhia dos filhos e da esposa, te dando força para recomeçar.

         Ainda sentia o gosto bom do café em família quando o interfone toca. Em vez de atender o toque do aparelho, abro a porta e lá está um homem velho, barba grande e roupa esfarrapada:

         – Vizinho, consegue um pão e um café aí?

         Voltei para a cozinha e preparei um pão preto diet (coitado, tudo o que ele não precisava era fazer regime, mas era o que tinha!), coloquei margarina, queijo e presunto e levei para ele.

         Ficou muito agradecido e me estendeu uma garrafa vazia plástica, pedindo um cafezinho quente. Voltei, enchi a garrafa com café e dei a ele. Agradeceu muito e estendeu um papel todo sujo, rasgado e onde parecia ter alguma coisa escrita:

         – Aqui está meu atestado de pobreza, vizinho, pode conferir!

         Eu disse que não precisava e ele disse que “o que o Senhor me deu é só um empréstimo. Até o final do dia tudo será devolvido”.

         Fiquei pensando porque ele entendia necessário apresentar um papel mais destruído que ele para provar que era pobre. É a burocracia, se está escrito que você é pobre, está valendo. Os trajes e a aparência não são suficientes, menos ainda sua palavra.

         O mais incrível é que ele disse, ao sair, que tudo que eu dera a ele era apenas um empréstimo, que me seria devidamente devolvido até o fim do dia.

         No início achei que ele era um espertinho, mas tudo que aconteceu depois do “empréstimo” comprovou que falava a verdade, pois o dia correu muito bem com a família e melhor ainda no trabalho. Era a devolução do empréstimo que fizera.

         Nunca mais o vi, e não ficaria chateado se voltasse.

         Vivendo e aprendendo!

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1 comentário

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Uma resposta para “ATESTADO DE POBREZA

  1. maria lúcia

    A vida é a mãe divina. O que damos com generosidade, recebemos em dobro. E se não nos devolve, o faz em caminhos cruzados: para nossos filhos!

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