LIVROCÍDIO

(Republicação)

 

         Quem já escreveu uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado ou um livro sabe qual é a mistura de sentimentos que toma o autor quando o fim do trabalho se aproxima: alívio, tensão, raiva, desespero e, afinal, alegria, nasceu o bebê!

         Mas, logo após o nascimento do bebê o autor é tomado de uma sensação de abandono, como se o filho tivesse desconhecido tantos meses de sacrifício,  aproveitado-se  de toda vitamina, todo líquido e todo o sangue da mãe e simplesmente tomasse seu próprio rumo.

         O isolamento do autor por parte da família  durante a gestação da obra equivale ao abandono do pai que não reconhece o filho, que não apoia a mãe e foge, para não ter de reconhecê-lo nem alimentá-lo.

         Durante a gestação, a família trata a “gestante” como se ela estivesse doente, olha-a com preocupação e pena, mas não a convida muito para sair porque pode atrasar o nascimento do bebê ou até mesmo abortá-lo. Se bobear, coloca a mãe de quarentena antes do nascimento da cria!

         Por isso, quando o livro nasce, mesmo antes do autor vê-lo impresso, a vontade é de matá-lo, fazê-lo desaparecer para que não nos faça passar vergonha, para que as pessoas não saibam que a mãe é solteira.

         A mãe é solteira sim, pois escrever um texto longo é uma atividade solitária e pior, autogerada, sem a participação do pai, o ingrato. Mais solitário que escrever só mesmo, bem, vocês sabem…

         Pior que a vontade de matar a cria é aquela ideia suicida que acompanha o autor durante o tempo todo, como é claro que não dará certo, vai vender pouco, se conseguir uma editora disposta a apostar na obra, as pessoas vão odiar, e por aí vai.

         Quando a ideia suicida ou a ideia “livrocida”, aquela de matar o livro sem dar-lhe oportunidade de nascer,  torna-se  muito forte, ligo a TV e assisto ao BBB, para ter certeza que tem coisa pior do que escrevi, e me acalmo, dando uma sobrevida ao meu bebezinho, coitadinho, tão indefeso.

         Isso é o “estado puerperal” de todo escritor, tanto mais grave quanto mais inexpressivo for o pai, ou melhor, a mãe.

         Por isso, de vez em quando os amigos fazem alguns elogios fingidos, não para salvar o escritor, pois  ele já é grande o suficiente para se defender sozinho, mas para salvar o livro, pobrezinho.

         Nana, nenê!

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