QUEIMANDO LIVROS

                

         É impossível não ficar extremamente impressionado e impactado com a leitura do livro Fahrenheit 451, publicado pela primeira vez em 1953, do autor americano Ray Bradbury, em que ele relata um mundo futuro em que os bombeiros, em vez de apagar incêndios em casas e edifícios, são utilizados para queimar livros.

         Os edifícios receberam proteção das mais modernas técnicas construtivas, tornando-se totalmente indestrutíveis pelo fogo, de forma que os milhares de “soldados do fogo” ficaram sem função. Neste mundo imaginário “a escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

         Ler livros torna-se um crime e os que se atrevem a desafiar a lei são perseguidos em rede nacional de televisão, para que os demais não se atrevam a cometer tal insanidade. O Estado fornece todas as informações que os cidadãos necessitam, de forma que não há necessidade de busca-las em livros!

         A alguém que pergunta como o Estado pôde estabelecer um serviço público com o objetivo de destruir a cultura, um dos poucos que algum dia leu um livro e que vive escondido para não ser morto, responde que o governo apenas aproveitou-se da ocasião de que a sociedade não lia mesmo, de forma que não houve resistência. Ler é perigoso, dá ideias e ensina a pensar, e isto não interessa ao Estado, que prefere o povo desinformado para melhor manipulá-lo.

         Fahrenheit é uma medida de temperatura, sendo 451º F equivalente a 232,78º Centígrados. Fahrenheit 451 é a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima…

         Se hoje não queimamos livros em praças públicas, é certo que também não damos a eles o valor que merecem, sendo mais cômodo ver um filme de uma hora e meia do que ler um livro de setecentas páginas. No filme, o que realmente importa do texto não aparece, a ação é mais relevante que a reflexão, o divertimento interessa mais que o pensamento, ou seja, se o livro vende ingresso de cinema, deve ser bom, mesmo que não valha nada culturalmente.

         Nada contra o cinema e a televisão, mas estas ferramentas jogam exatamente com a nossa preguiça de ler, de imaginar, de pensar, dano-nos tudo que precisamos, de forma absolutamente contemplativa: cor, som, imagem, altura, profundidade, sem necessidade de tantas palavras, ora bolas! E de forma rápida, pois não temos tempo.

         No livro de Bradbury conhecemos um grupo de leitores que vive fora das cidades, nas matas, como mendigos, sem livros impressos mas com todos os textos em suas cabeças. Alguns conhecem apenas capítulos de livros que leram antes que fossem queimados e, eventualmente se reúnem os capítulos de cabeça e cada um diz o que lembra. Estes livros mentais o governo não pode queimar, a não ser que mate quem o carrega na cabeça.

         Para encerrar, um dos “capítulos” diz que “todos devem deixar algo para trás quando morrem…Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos…quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali…”

         Quantos capítulos de livros você tem em sua cabeça?

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