Capítulo 17 do livro “Pelas ruas da cidade”

Estou vendo a face de Deus, ele olha para mim com atenção, mas não parece estar interessado em me salvar, talvez porque eu mesmo esteja indiferente a isso.

Dizem que a gente despreza a vida até que a possibilidade de perdê-la se apresenta, mas isso não me impressiona.

Deus, por que olha para mim quando deveria estar olhando por mim, assegurando que eu não tivesse feito tanta bobagem?  “Filho Meu”, diz ele, “se tu nada fazes para te defender, para manter a vida que te dei sem te cobrar nada, que posso Eu fazer?” Invocado o Velhinho, mas Ele tem razão.

Sentindo, ou melhor, sabendo o que penso e daí o que sinto, Deus prossegue dizendo que deu a todos nós livre arbítrio, para que escolhêssemos a vida que iríamos levar, e que eu escolhera viver na rua, passando fome e frio, praticando pequenos assaltos em lojas e transeuntes, longe da família.

A família, será que um dia eu tive uma? Onde estava ela? Agora que eu estava no hospital, quer dizer, acho que estava no hospital, pois não conseguira ainda ver nada, apenas sentir cheiros que pareciam com algum ambulatório ou posto de saúde.

Uma nuvem branca fechava minha visão. Tentei abrir os olhos, pois ouvira algumas vozes, sem entender o que diziam. Com dificuldade virei parte do corpo para um lado e, porra, despenquei para baixo. Em questão de milésimo de segundo, bati em algo plano e duro, acho que era o piso. Foi como se tivessem arrancado um pedaço do ombro direito, não conseguia respirar de dor, que partiu do ombro com o qual bati no chão e se espalhou pelo corpo todo.

Abri a boca, tentei gritar, mas não saiu som algum, apenas um ronco, como se fora um animal. A vista, já turvada pela nuvem, escureceu.

Vozes dizendo “mas que droga, estes merdas só dão trabalho”. Senti quatro mãos, me pegando pelos braços e pelas pernas, jogaram-me novamente na cama ou na maca. Saíram, depois de jogar sobre mim um tecido grosso. Estou morrendo, Deus, me ajude.

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