Pelas ruas da cidade – Capítulo 1

CAPÍTULO 1

 

As luzes do apartamento acenderam-se. Ouço vozes distantes, pois estou, em linha reta ascendente, a cerca de 50 metros, sentado no meio fio da calçada em frente. Ao meu lado meu fiel companheiro, um cão de rua, tão vira-lata quanto eu. Como ele não veste roupas, cheira melhor que eu. Aliás, às vezes penso que ele, apesar de ser apenas um cachorro, é melhor que eu, melhor que eu por receber muito mais atenção de quem passa. Há muito mais associações de defesa dos animais do que associações de defesa de gente. Penso  que isso não existe. Mesmo que existisse, não sei se aceitaria ser defendido por outras pessoas, devo ter capacidade para defender-me sozinho. Não fosse assim não teria sobrevivido há mais de dez anos de rua. Talvez sejam mais de dez anos, pois não tenho certeza quando vim para a rua, acho que, mesmo quando tinha uma casa, morava mais na rua do que nela.

       Imagens surgem na janela do apartamento no qual as luzes acabaram de ser acesas, parecem ser de um homem e uma mulher. Outras imagens menores, de crianças, duas, não dá para saber se meninos ou meninas. Correm pela frente da janela, pra lá e pra cá, devem estar brincando. Riem, riem, até que aquela imagem que parece de um homem pega uma das imagens que parece uma criança pelos cabelos e começa a bater na sua cabeça. Choros, gritos, a imagem de mulher avança contra a imagem do homem e brande algo parecido com uma cadeira sobre sua cabeça. As cortinas estão semiabertas, é impossível divisar a verdade do que está acontecendo lá, mas não é coisa boa.

O trânsito é intenso, apesar de já ter passado das dez horas da noite, acho que são pessoas voltando de seus trabalhos, mas é muito tarde para isso, ou devem estar voltando de jantares, mas é muito cedo para isso. Porra, de onde vêm eu não sei, mas sei que não param seus carros, andam de lá para cá, buzinam, colocam a cabeça pela janela quando o fluxo diminui de velocidade, xingam “barbeiro, filho da puta, onde tu comprou tua carteira, só podia ser mulher na direção, vai-te f..” e outras palavras que devem ter aprendido no convívio social da cidade civilizada.

Penso em chamar a polícia, há um policial parado na esquina, mas não tenho uma boa folha de antecedentes, alguns pequenos furtos, vadiagem e até a suspeita de participação em um homicídio de outro mendigo. Para ser sincero, não posso dizer que não tenha algo a ver com a morte do mendigo, pois estava tão chapado naquela noite que só me lembro dele morto, caído na sarjeta, sangue saindo pelo nariz, água suja lavando tudo. E lembro que eu estava feliz com o que via, ou melhor, feliz não, apenas aliviado, não sei por quê. Não estava chateado com a morte do colega de profissão, alguma coisa deve ter acontecido entre nós para que eu estivesse satisfeito com sua morte, não duvido mesmo que tenha ajudado a matá-lo. Assim, é bom me manter afastado da polícia.

As imagens desaparecem da janela. Silêncio por alguns minutos, depois passos de pessoas descendo as escadas, apressados. Surge na porta do prédio uma mulher, as roupas rasgadas, seios quase à mostra, cabelos desgrenhados, parecem com os meus, que não veem um banho e um pente há muito tempo. Nem tanto, mas bem bagunçados, caindo sobre os olhos, assustados, que olham para todas as direções. Quando ela se projeta para a rua, mais próxima das luzes que brilham nos postes, vejo duas crianças segurando cada uma de suas mãos. Uma delas sangra o nariz, a outra chora muito, abraça-se à mulher e grita “mãe, mãe”. Esta, apesar de eu tentar me esconder atrás de um arbusto que enfeita a calçada, me vê e pede “senhor, me ajuda”.

Não é todo dia que sou chamado de senhor, aliás, faz tanto tempo que nem lembro e fico tentado a ajudar, mas o instinto de preservação é mais forte e corro para o outro lado da rua, escondendo-me no vão de uma porta escura. O cachorro fica na calçada, latindo em direção à mulher e às crianças, mas não de forma agressiva e, sim, como se estivesse a dizer “ele fugiu porque é covarde”. Fico bravo e penso do cão “vagabundo, tu não tens nada a perder, a não ser a bóia que te dou”. Antes que pudesse me arrepender de ter fugido, o que era pouco provável que acontecesse, salta na calçada um homem enorme, com um objeto na mão que parece um pedaço de pau, gira o instrumento como se fosse um taco e acerta na cabeça da mulher, mesmo ela estando abraçada às crianças. Então o sangue jorra do meio do cabelo desgrenhado, as crianças gritam “para pai, para pai”, ele não para, enfia a enorme mão no peito da mulher e a joga na pista de rolamento, veículos desviam, outros freiam, mas um deles, que vem mais rápido, passa por cima do corpo, plum, e para. O motorista desce do carro, vê as pernas da mulher saindo debaixo do veículo, coloca as mãos na cabeça e sai correndo.

Enquanto olhava a cena do motorista fugindo do local, não pude ver o homem que empurrara a mulher arrastando as crianças para outro carro, estacionado a cerca de dez metros, em outra rua que fazia esquina com esta. Foi o que me contou um mendigo, dias depois, enquanto fumávamos crack debaixo de um viaduto, porque não fiquei no local para servir de testemunha.

Já chegava um cadáver no meu currículo, não precisava de outro, ainda mais de alguém de classe média.

Tenho visto coisas pelas ruas da cidade que até Deus duvida. Na verdade não tenho tanta certeza disso, pois tenho andado meio afastado dessa figura tão estranha e distante. Sinto que já acreditei mais em Deus, mas, por qualquer motivo, só peço a ajuda a Ele quando estou em dificuldades muito grandes.

Como castigo,  Deus não tem me valido muito. Eu faria a mesma coisa que Ele, mas me pergunto se Deus não vê as coisas que acontecem nas ruas, as barbaridades que os homens cometem, as judiarias que uns fazem com os outros.

Sem acreditar em Deus ou pedindo seus cuidados apenas em situações de penúria grave, minhas contas com Ele devem estar negativas.

Se você quiser posso contar, mas como eu falo tudo que vejo, eu vou contar mesmo que você não queira.

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