Atirando para matar – Orlando Fonseca

Sempre que a tragédia deixa o palco ou a tela para espalhar terror na plateia, a gente se acorda de um sono letárgico. Volta à tona o tema do desarmamento da população. Se de um lado saltam os que defendem o uso indiscriminado de armas, por outro, parecem inofensivos e ineficazes os argumentos desfavoráveis – gente que se assusta, mas que não consegue fazer valer a sua posição, a qual, desconfio, é majoritária. Considero um absurdo não se limitar a possibilidade de um paranoico entrar em uma loja, comprar um revólver ou um fuzil, registrá-los e conseguir permissão para sair por aí atirando com naturalidade. Tudo o que se diz em contrário, para mim, é apenas desculpa.

Os que defendem o uso de armas querem que a sociedade se adapte ao seu comportamento. Pretendem impor a todos a visão de que é preciso estar armado para se defender. Em números absolutos, a grande maioria da população civil não deseja ou não tem condições de comprar arma. Portanto, é uma minoria que entende ser o uso de arma um direito. Não vou colocar nesse grupo – para não ferir suscetibilidades ou causar constrangimentos – os marginais ou os bandidos, pois destes não se pode falar em direito, uma vez que agem fora da lei. Mas é de se pensar que, segundo dados oficiais, o maior número de armas apreendidas pela polícia tem origem no roubo a cidadãos civis.

Cidadão de bem não precisa de arma. Não sou ingênuo para imaginar que a sociedade vai se livrar tão cedo, e tão fácil, de todos os que agem por impulso, feito bestas feras, por arrogância ou por qualquer outro desses defeitos do ser humano, que o faz agir irracionalmente. Certamente, se as condições de vida melhoram, se a qualidade de viver em grupo melhora, diminui a possibilidade de atritos, de desavenças, de assimetrias sociais e culturais. Sempre se ouve falar sobre lugares em que é possível “dormir com a janela aberta”, ou “sair e deixar a chave na ignição”, porque a população é pacífica e reina harmonia entre todos. Também se ouvia falar que nos países mais adiantados – econômica e socialmente – havia menos violência urbana. Os EUA têm sido uma exceção pelos inúmeros fatos como o que ocorreu em Aurora, no estado do Colorado. Na Europa, massacres como o praticado por Anders Breivik, na Noruega, com 77 mortos, deixam uma ponta de desconfiança no avanço da civilização.

De qualquer modo, é possível pensar que um mundo com mais afeto, com certeza, teria menos argumentos para que alguém portasse uma arma calibre 38 ou uma lâmina afiada.

*Professor e escritor

ofonseca@terra.com.br

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