EU APOIO AS COTAS


João Marcos Adede y Castro 

Antes que alguém diga que estou advogando em causa própria, já vou avisando que não sou negro, não sou índio, não sou portador de necessidades especiais e, graças ao meu trabalho e esforço, não sou pobre.

É certo que o pouco que consegui, em termos culturais, sociais e econômicos foi em razão de um esforço extraordinário para provar que eu podia, apesar de ter nascido em família pobre, cujo pai e mãe, juntos, não ganhavam mais de um salário mínimo e meio por mês, tinham sete filhos e moravam de favor em um terreno cedido pelo Poder Público.

Historicamente, pelo menos desde 1500, os negros têm sido discriminados, ofendidos e relegados a subempregos e subsalários, vítimas permanentes de piadas de maus gosto e comparações maliciosas a animais de pouca inteligência, sendo-lhes reservada a favela por moradia e a salários de fome como referência.

Os índios foram dizimados ao longo destes quinhentos anos, não só fisicamente como moralmente, tiveram destruída sua cultura, sua língua e seus costumes, estando hoje a vagar como mendigos nas rodovias ou periferias das cidades.

Os portadores de necessidades especiais que, ao longo de toda a história do Brasil foram desprezados ou tratados com falsa comiseração, excluídos do convívio social e marginalizados nas oportunidades de emprego e salário pela sociedade, só há pouco adquiriram algum respeito legal.

Como todo o respeito a entendimentos contrários, enquanto os índios, os negros e os deficientes estavam sendo discriminados, poucas pessoas falavam no princípio da igualdade que o artigo 5º da Constituição consagrou.

Agora, quando se tenta reduzir um pouco as desigualdades e resgatar uma dívida histórica de 500 longos anos, alguns, sem nenhum constrangimento, dizem que o princípio da igualdade não permite a reserva de vagas nas escolas aos negros, aos índios e aos deficientes.

Ora, o princípio da igualdade pressupõe um mínimo de igualdade de oportunidades de crescimento educacional, social e econômico, o que sempre foi negado aos hoje cotistas.

Se eles, ou alguns deles, não souberem aproveitar a oportunidade, não é justo que se neguem a todos as mesmas oportunidades.

O que se deve buscar não é apenas uma igualdade legal e constitucional, mas uma igualdade material real, efetiva. E, para isto, em algum momento teremos de abrir nosso coração e correr o risco dos cotistas provarem que são melhores que nós.

Eu, pretensiosamente, não tenho medo deles. Eu sei o que posso e sei das minhas limitações.

Tenho medo, sim, do preconceito. O mesmo que vem perseguindo há 500 anos estes cidadãos negros, índios e deficientes.

Que venha a concorrência e que vençamos todos, não só como indivíduos, mas como sociedade.

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5 Comentários

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5 Respostas para “EU APOIO AS COTAS

  1. danisaia

    A impressão que me dá, Adede, é que algumas pessoas são contra o sistema de cotas porque não podem suportar a ideia de precisar dividir os bons empregos e os melhores cargos com negros, índios e pessoas com necessidades especiais.

  2. marcia rocha

    Não concordo com medo de dividir nada, só que onde o Estado é omisso, inoperante e mal intencionado, por nao ter PRIORIDADES, pq dinheiro têm e muito, o que falta É PRIORIDADE de onde aplicar.

  3. adedeycastro

    Marcia, sei que és valente e lutadoras, mas hás de concordar comigo que tem muito medíocre por aí que só venceu na vida porque era branco e rico! O negro e o pobre sempre foram invisíveis, e agora não podemos admitir que eles tenham algum protagonismo. Sei que não é o teu caso, te conheço o suficiente para saber quanto és justa, mas o mundo não se restringe a nossa casa! Obrigado pela visita!

  4. Lucas Saccol

    Professor João Marcos achei muito interessante sua reflexão, porém, creio que a forma em que busca-se essa igualdade não está nenhum pouco correta, uma vez que, acaba-se por criar mais uma vez, o ônus sobre todos os cidadãos por uma responsabilidade que é do governo.
    Como dito pela Marcia Rocha, isso é consequência da omissão do Estado, tendo em vista que, a educação não é uma das prioridades dos governantes.
    Quando falamos de instituição pública – universidade federal, sabemos que a grande maioria que lá está são filhos de famílias com bom desempenho econômico, que tiveram bons investimentos no estudo básico e preparação para o vestibular, excluindo do concurso não só negros, índios,… mas também, outros brancos, ou “normais”.
    O sistema é falho, e não creio que a solução para resolver tais problemas seja reservar dentre os números existentes vagas para pessoas que possuem “diferenças”, se essas, não passarem por uma preparo na qualificação de seus estudos e incentivo desde os bancos escolares, caso contrário, qual o profissional que estará em formação?
    Isso não é medo de dividir, afinal, já passei pelo concurso e fui um dos ditos “perdedores”, que com uma pontuação bem superior do que a prevista, não conseguiu ingressar em instituição pública pelo descaso dos nossos “representantes”, que, em vez de qualificar todas as esferas de ensino e ampliar as vagas e oportunidades, transferem a responsabilidade para a sociedade, mas nem por isso, fiquei lamentando ou deixei de desistir dos meus objetivos, que passaram a ser ainda mais difíceis.

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