É PROIBIDO MORRER


João Marcos Adede y Castro 

Na Sucupira da obra O Bem Amado, o prefeito Odorico Paraguaçu, na falta do que mostrar como realização de sua administração, desejava ardentemente um defunto para inaugurar solenemente o cemitério.

Como ninguém se dispunha a morrer, o administrador contratou um matador profissional, mas este se revelou um desastre total, pois tinha pena de suas encomendadas vítimas, e o cemitério, novinho em folha, permanecia vazio, para desespero do prefeito.

Agora, em sentido inverso, um prefeito de uma pequena cidade da Itália decretou que está proibido morrer, porque a comunidade não possui um cemitério e aquele mais próximo, em outra cidade, está lotado.

Não ficaram claras quais as punições que seriam aplicadas àqueles que, em total desrespeito à ordem administrativa, inventarem de morrer. Talvez, e isto já é imaginação minha, se pudesse processar o defunto por desobediência, recolhendo-se a sua alma a um presídio virtual, quem sabe em um site na internet.

Diferente disto tudo é a estória contada por José Saramago em “Intermitências da Morte”, em que esta, cansada de tantas reclamações e choros em razão de sua natural e já sobejamente conhecida atuação, resolveu entrar em greve.

No início a felicidade foi geral, mas em seguida observou-se que as pessoas não morriam, mas também não se curavam, e ficavam sofrendo para sempre, causando o colapso do sistema de atendimento à saúde, quebrando a previdência, pois os velhos não morriam, as seguradoras, pois ninguém precisa de seguro de vida se sabe que não vai morrer e as funerárias, causando desemprego em massa e grave crise social.

Em pouco tempo as pessoas do país em que a morte estava em greve começaram a passar as fronteiras para morrer em outros países em que a morte não estivesse em greve, gerando incidentes internacionais e a guerra, com muitas mortes!

Isto é uma bobagem, só não maior que o decreto do prefeito italiano, que não resolveu o problema de falta de cemitério, mas garantiu alguns minutos de fama internacional por ser um idiota completo.

A morte faz parte da vida e já se chegou a dizer que se não fossem as grandes guerras e os milhões de pessoas que morreram em eventos catastróficos como pestes e matanças generalizadas, o mundo hoje seria inabitável, por absoluta falta de espaço.

Portanto, morrer é uma coisa muito menos trágica do que parece, posso atestar, apesar da falta de experiência pessoal.

Quando chegar a minha hora eu conto como foi.

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