Idoso fujão

João Marcos Adede y Castro

Sem medo de ser mal interpretado, pois afinal já tenho, pretensiosamente, uma história sólida de defesa dos interesses sociais, no exercício de minhas atividades como Promotor de Justiça, ouso afirmar que o idoso não é, sempre, um coitadinho.

Duvido que qualquer um que leia este texto não conheça pelo menos uma história de pessoas que, na juventude ou na meia idade, não tenha fugido da família, abandonado mulher ou marido e filhos e ido morar sozinho ou na companhia de outra mulher ou outro homem, pelos mais diversos motivos, alguns até bem razoáveis.

Ser feliz é uma necessidade do homem ou mulher, e somente ele pode avaliar onde e como realizará tal estado de felicidade, se junto ou distante da família original. Até aí tudo bem.

O que ocorre, quase todos os dias, é que aquele homem ou mulher que, em busca da merecida felicidade, saiu de casa para viver com outro homem ou outra mulher, formou nova família e nunca mais voltou, nem para dizer “oi” aos filhos da primeira relação, em algum momento fica velho, doente e viúvo, ou abandonado, inclusive pelos “novos” filhos.

Daí ele descobre que a lei impõe aos filhos a obrigação de atendê-lo, alimentá-lo, vesti-lo, e, incrível, dar-lhe carinho, mesmo que entre eles não exista nenhuma relação de afeto, apenas de sangue.

Não se discute aqui os motivos da fuga da primeira relação, mas o fato de que ninguém fez esforço algum para manter, minimamente, laços de afeto, interesse, preocupação, passando a ser o pai ou a mãe e filhos, absolutos estranhos, quando não inimigos declarados.

Uma pessoa não é um objeto que se coloca em uma gaveta ou um quarto esquecido, mas um ser que exige e merece carinho, afeto e proteção familiar mas, sem dúvida, deve fazer por merecer isto, através de suas atitudes e comportamento.

Como se resolve esta questão, senão através da conscientização permanente de todos de que uma relação entre pais e filhos não se constrói por imposições legais? O que eu posso desejar da relação com meus filhos não está escrito na lei, mas em meu coração, na minha alma, espírito e disposição para perdoar e conviver.

Com ou sem razões, aquele que foge da família e nunca mais se interessa por ela, está fadado, não sei de forma justa, a morrer sozinho.

Não fui eu quem decidiu isto, mas a vida.

Anúncios

13 Comentários

Arquivado em Uncategorized

13 Respostas para “Idoso fujão

  1. Ana Claudia Peixoto

    Concordo, plenamente com o exposto no artigo acima. Não será por meio de imposição legal que surgirá de uma hora para outra o que já se perderá durante o passar dos anos.
    Não é por que a lei diz que eu devo dar carinho, seja ao meu ou minha mãe por temos um vínculo sanguíneo, que eu conseguirei o fazê-lo.
    Uma relação de carinho se constroí com o passar dos anos, com o respeito, com dedicação, afeto, cumplicidade e acima de tudo amor. E pra isso precisa com toda certeza de convivência.
    Parabéns pelo texto .

  2. Carlos Pires

    Caro mestre Adede,

    É sempre um prazer compartilhar suas ideias.
    É bem verdade sque a lei não distingue maus ou bons antecedentes, mas que aos maus não é ético (embora seja legal) pedir auxílio a familiares antes abandonados, isso não é. Nada obstante, é o que mais se vê.
    Ótima lembrança.
    Ótimo texto, como de costume.
    Grande abraço!!!
    Carlos

  3. Telma K da Gama

    Todo o exposto tem razão,são muitos os motivos de abandonos mutuos.Desde pai abusador a de filho mau caráter e de péssima índole.Deve conhecer a história do filho,que expulsou o velho pai de casa.Jogou um cobertor a ele e disse”vai-te embora,velho”.O filho deste, vendo a cena pulou,no avô e rasgou ao meio o cobertor.O pai surpreso perguntou,”por que fez isto?o filho respondeu”este pedaço é para quando eu te mandar embora de casa também”.Telma da Gama

    • adedeycastro

      Telma, sem dúvida que o filho que despreza os pais está criando todas as condições para ser, futuramente, desprezado pelos seus filhos.
      Abraços

  4. celina fg.mayer

    Gostei, viste? Quando se fala em abandono, solidão dos idosos deve-se procurar, primeiro, as causas. Tem gente que “planta” mal e quer colher do melhor. Isso não existe e não há lei que faça mudar,
    de uma hora para outra, por causa de um Estatuto, o que um idoso “preparou” para ele mesmo.

  5. Caríssimo Adede

    Pela natureza do homem, conforme boa parte da Literatura e da Filosofia, considero-o suscetível a diversas e terríveis falhas: como a da corrupção (tão facilmente observada), do egoísmo, da vaidade exacerbada, da intolerância, da mesquinharia… (eu disse….que eram terríveis…). Assim sendo, a jurisprudência devia nos apoiar quanto à busca de tentativas de correções, ajustamentos àquilo que consideramos certo…. Mas, infelizmente há muita distância entre a teoria e a prática! Bom, por sorte, existem pessoas maravilhosas em quem confiamos, como você, meu amigo! Abraços, Carla.

    • adedeycastro

      Você entendeu, naturalmente, que não quero jogar a culpa no idoso, mas construímos nosso futuro, e devemos pagar o preço, por mais
      inocentes que sejamos.
      Abraços

  6. Santiago Artur Berger Sito

    Caríssimo amigo, professor e chefe, Dr. João Marcos.
    Como o senhor, penso que a relação afetuosa filial desenha suas idiossincrasias pela vida, pela experiência. Mas mesmo diante de todo abandono, por pior que seja, há um componente que nunca se afasta: a vida. Pai é pai. Mãe é mãe. Do conjuminar deles se sintetiza vida. Não há outra forma. Espiritualmente falando, sempre há um débito. Poderíamos chamar de um “débito de vida”. Débito que não se paga ao credor, mas a outro que a ele se subroga: o filho. E assim se escreve o “romance em cadeia”, para o senhor que gosta de Dworkin. Talvez eu esteja exigindo muito para almas calejadas pelo abandono/desprezo. Sonho kantiano. Enfim. Importa que as coisas dizem por elas mesmas, não somos nós que pactuamos para dar significado à elas. Temos a impressão que dominamos os significados… Mas é isso. Parabéns pelos textos. Lamento muito não ter comparecido no seu último lançamento. Sabes que acompanho teu trabalho com felicidade e admiração. Estou correndo contra o relógio, na construção da dissertação do mestrado. O sonho de ser mestre se aproxima! Grande abraço, belo trabalho, felicidades à família!

  7. Ari Quadros

    O Dr. João Marcos Adede y Castro com sua sensibilidade e brilhantismo de sempre. Cumprimento-o com elevado apreço.

  8. Mirele y Castro

    este li no jornal… achei o máximo… acho que tu tem um pouco de idoso fujão… hauhauhaua.. bjos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s